Como e Por que Escrevo?



por que escrevo

“Como profissão, a de escritor é das mais difíceis e problemáticas...” (Érico Veríssimo). Foi um caminho complicado. Em 1969 em Tubarão/SC meu pai acabara de comprar uma televisão e precisou de três homens para descarregá-la da camionete pick-up Willys, as válvulas eram 

do tamanho de garrafas térmicas, mais tarde descobriríamos que a TV também serviria como lareira. 

Nesse ano assisti à chegada do homem a lua. Fiquei tão encantado que passei os três meses seguintes desenhando foguetes, uma versão tupiniquim da Apolo 11. Questões espaciais me fascina até hoje. Então, com sete anos de idade decidira que seria astronauta. Ledo engano, minha condição de portador de Hemofilia não permitiria que isso se realizasse aliado ao fato de ser brasileiro. Mas, como dizer isso a uma criança que ainda acreditava em papai-noel? Mesmo assim acalentei esse sonho por mais dois anos até “cair à ficha”. Nos dias de hoje seria “cair o cartão”, afinal os telefones públicos mudaram e, até mesmo um brasileiro se tornou astronauta.

Quando contava com nove anos queria servir o exército, meu pai era 2º Sargento na época em que decidira seguir seus passos. Estudava ao lado do quartel e passava muito tempo lá. Nas campanhas de vacinação era o primeiro a levar a agulhada, pois como hemofílico estava acostumado. Eram agulhas grossas e, às vezes, até rombudas (não existiam descartáveis). Nessas ocasiões eu mostrava minha coragem e ainda fazia pose de super-homem com o peito estufado e os braços cruzados sobre ele. Perdi a conta dos soldados que vi desmaiar na fila antes mesmo de serem “agulhados”. Pensava: se um marmanjo não consegue ficar de pé diante de uma seringa, então, posso servir o exército. Com 17 anos sabia que não poderia servir o exército, mas tinha de passar pela avaliação de saúde e capacidade física. No dia do exame tinha a minha frente uma fila indiana de 26 rapazes nus. O primeiro da fila tinha de subir numa pequena plataforma de costas para a fila, onde segurava uma espécie de guidão preso a uma corrente que registrava na balança o quanto o jovem podia levantar. Imagine a cena: pernas afastadas e dando tudo de si para levantar o máximo de peso possível. Era uma visão grotesca. O jovem fazia tanta força que era possível ver suas amígdalas. Ao contrário do que possa parecer, ninguém na fila ria do pobre infeliz, estavam todos assustados, afinal cada um teria de mostrar sua força interior na pequena tribuna. Começava a tirar a roupa quando o sargento ‘x’ me chamou até sua mesa, caminhei ao lado da fila na sua direção e, quando lá cheguei entregou-me o certificado de reservista. O sonho de vestir a farda verde acabava oficialmente.

Minhas idas e vindas aos hospitais para tratamento hemoterápicos eram frequentes, por isso faltava muito ao colégio e compensava estudando em casa. Sempre fui aluno dedicado, muito curioso a ponto de irritar professores e colegas. Era um aprendiz e ainda sou. Lia o que podia quando não encontrava pessoas disponíveis a me informar. Tomei gosto pela leitura e por escrever. Aprendi o suficiente até descobrir que poderia mudar alguma coisa dentro de mim expressando-me através da escrita. Assim, minha próxima opção profissional foi ser escritor. A partir dessa decisão só fui me sentir escritor quando disse repetidas vezes: Eu sou escritor! (Risos).

Escrever é uma espécie de divã onde podemos soltar os ‘bichos’ presos dentro de nós. A diferença é que o terapeuta não está lá, estamos sozinhos. O processo é penoso, porque é difícil se expressar através da escrita, encontrar as palavras certas sobre aquilo que estamos sentindo ou pensando e, no meu caso, português ainda parece grego! Fomos educados a escrever, ortográfica e gramaticalmente, e isso limitava minha livre expressão. Escrever é uma jornada, não se corre para luz (aconteça o que acontecer, fuja da luz!), buscamos sim a escuridão, o mistério, como no filme ‘Star Trek’: “uma jornada onde nenhum homem jamais esteve”. Infelizmente, quanto mais tentamos introduzir uma novidade através da escrita mais revelamos o cotidiano, nossas idiossincrasias e a busca vã pelo significado da existência. Nascemos para morrer, uma verdade incontestável.

O ato de escrever equivale a sentir dor ou ter fé. É pessoal, solitário e intransferível, no tocante de que ninguém pode fazê-lo no seu lugar. Depois do texto pronto ele passa a ser de domínio público. O autor se encontra na multidão e ela com o autor. Assim, após a leitura não somos mais as mesmas pessoas, somos diferentes na igualdade.

Às vezes, gosto apenas de enfileirar as palavras no papel, uma após a outra até completar uma página, depois leio e quando não faz sentido algum tento um novo ordenamento. Às vezes dá certo, a maioria não!

É duvidoso, não sei se escrevo como um meio de expressar o ‘eu interior’ e expô-lo ao mundo como o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates. Ou talvez para desconcertar as pessoas, tirá-las das suas zonas de conforto, entrincheiradas em seus castelos de certezas, construídos sobre areia movediça. Derrubar essas “certezas” me dá certo prazer. Isso seria uma espécie de perversão? Acredito que não! Se o que acontece na vida não esta funcionando, mas ainda é considerado correto, temos a obrigação de questionar incessantemente.

Segundo Paul Auster “escrever é a arte da solidão”. Para Ricardo Piglia “a literatura é o laboratório do possível”. Impossível discordar dos dois escritores, porque enquanto escrevemos brincamos de Deus, nesse caso tudo é possível numa história. Podemos ressuscitar um morto desde que o enredo nos convença e, assim como Deus, também estamos sós, dependendo apenas de nós mesmos. Segundo Jean-Paul Sartre: “toda obra literária é um apelo”.

Assim, não é o próprio ato de escrever que me deixa feliz, mas a possibilidade de criar um mundo diferente, pelo menos em minha mente. Do ponto de vista psiquiátrico isso poderia ser diagnosticado como esquizofrenia.

Escrevo do mesmo modo que Truman Capote e Atoine Blondin. Sou um escritor horizontal, preciso que o corpo esteja descansado. O melhor lugar, além da cama é a rede, porque proporciona uma sensação de movimento, sem dor nas costas e problemas de postura, o que é comum para uma pessoa com 1.90 m de altura. Talvez o processo de criação se dê mais facilmente devido a posição horizontal favorecer a circulação sanguínea e por consequência o aumento da oxigenação cerebral. Prefiro escrever na parte da tarde, noite ou até de madrugada, porque de manhã acordo quase sempre de mau humor; fico emburrado e demoro carregar meu sistema operacional.

Por essas razões escrevo primeiramente a mão (levar o laptop para cama ou rede é desconfortável) e parece funcionar bem para o processo de criação, o contato é direto com a folha em branco. Esse é o momento do “eu sonhador” estar ativo. Escrevo com caneta tinteiro (gosto da sensação de pena arranhando a folha) em cadernos brochura capa dura (dispensa a prancheta), da esquerda para direita e ao contrário como fazem os árabes, na vertical de cima para baixo como fazem os chineses e o contrário também, claro, limitado ao português.

Quando termino o manuscrito deixo descansar na gaveta em banho-maria por algum tempo. Tento me desligar do que escrevi para ter distanciamento psicológico, mas esse tempo é flexível, varia conforme minha ansiedade, ninguém é perfeito.

Depois de manter certo grau de distanciamento psicológico, ponho o manuscrito ao lado do laptop e formato o Word para receber o texto. A configuração básica da página é: 2,5 (todas as bordas) em folha A4; fonte nº 12 Times New Roman com espaçamento de 1,5 entre linhas. Durante o processo de transferência do manuscrito para o Word novas ideias vão surgindo e eu vou inserindo enquanto digito, sem pressa, pois gasto muito tempo traduzindo a receita médica (manuscrito) tentando adivinhar o que escrevi. Assim, novas ideias surgem durante a tradução.

Findo a etapa anterior passo o corretor ortográfico e gramatical sobre o texto. É a primeira peneirada dos erros mais gritantes. Assim, o manuscrito sofre a primeira mutação – texto impresso – e volta para a gaveta na vã esperança de o texto se completar sozinho.

Como pode perceber meus textos descansam muito, eles precisam tomar fôlego, deixo os personagens em estado de suspense temporal. Enquanto isso a mente fica a procura de conexões, arranjos e rearranjos. Do caos a ordem e vice-versa. Mas de certa maneira o trabalho vai se organizando na cabeça. É um desses milagres inexplicáveis.

Em seguida volto ao texto impresso, encadernado no formato brochura e faço uma leitura crítica. Nessa fase cada palavra cortada do texto é como se fosse um pedaço do corpo indo embora. Ao final digito todos os acréscimos e faço os cortes necessários que por sua vez gera um novo texto impresso. Esse processo se repete algumas vezes até chegar ao ficar satisfeito com o texto. E aqui está minha limitação, às vezes, meu máximo pode significar o mínimo para outra pessoa. O contrário também é verdadeiro.

Tenho como fontes de inspiração a ciência, o misticismo, a mitologia, a religião e, principalmente, os problemas humanos. Diz-se que a “necessidade é amiga da invenção”, acredito que a gênese de qualquer história se encontra aqui – os problemas humanos.

Falta amor, compaixão, solidariedade, esperança e desejamos ser admirados em determinado grupo. Todos de alguma maneira, diferindo apenas em grau estão envolvidos com o processo de autorrealização. Isso é complicado, porque é sempre a luta do indivíduo, tentando se realizar e se posicionar frente a uma coletividade que lhe impõe regras de conduta e outros obstáculos dificultando sua ascensão. É verdade, os obstáculos dificultam a jornada individual rumo aos objetivos. Entretanto, quando se conquista o objeto desejado à alegria é proporcional aos obstáculos enfrentados ao longo do processo.

A história nasce dessa luta individual versus coletivo. Só precisamos criar um mundo paralelo para desenvolver a história, pois os personagens que inserimos nela são em grande parte “gente como a gente”. Mesmo que vivam num mundo fantástico, precisam ser até certo ponto “gente-como-a-gente”. Precisam sentir medo, raiva, ódio, amor, inveja, precisam lutar por seus objetivos, pela vida e precisam estar envoltos numa atmosfera de mistério e intrigas como a vida, se contrariar esses princípios, não temos história, e então, jogamos o livro de volta na prateleira ou o manuscrito no lixo.

Desse modo, a ficção tem de cumprir três propósitos: o primeiro é emocionar e encantar o leitor com uma história que poderia ser possível no mundo “real”; a segunda é proporcionar ao leitor uma reflexão sobre sua vida e em terceiro a “ficção precisa fazer sentido, a vida real não”.

Acredito não existir receita para se escrever um romance, felizmente. Caso contrário, estaríamos falando de gramática e ortografia. Há técnicas que ajudam o iniciante a desenvolver uma historia. Mas uma coisa é certa, o formato final dessa história vai depender da sua intenção inicial.

As pessoas quando começam a escrever tem em mente o “como publicar minha história (meu livro)?”. Esquecem que o fundamental é responder a pergunta: Por que desejo publicar meu livro? Tudo vai depender da sua resposta (intenção) a essa pergunta, pois ela determinará e influenciará diretamente sua abordagem sobre o que pretende escrever. O que deseja? Ganhar muito dinheiro? Satisfazer um desejo pessoal? Deixar seus parentes e amigos orgulhosos de você? Questionar os valores da sociedade? Ironizar a vida, mostrando seus paradoxos? Chamar atenção para uma causa nobre? Seja lá qual for sua resposta, ela irá influenciar seu trabalho.

Bem lá no fundo e, às vezes, não tão fundo assim, o escritor busca a glória para a sua obra. Que ela seja comentada, discutida, repudiada, amada, odiada, refutada, etc. Uma valorização positiva ou negativa não chega a ser importante, pois ele pode usar esses dois critérios para melhorar o ofício de escrever e construir uma história mais emocionante da próxima vez. O fundamental é que a obra mexa com o interior das pessoas. Para o escritor a indiferença é a morte. No velho ditado: “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

Cada escritor tem sua rotina específica de trabalho. Ernest Hemingway apontava lápis antes de começar a escrever e Willian Shakespeare cuspia ao lado da escrivaninha (vale lembrar que não existiam vacinas nos idos de 1400). Se formos pesquisar os hábitos de cada escritor, chegaremos à conclusão que somos de outro planeta. Em princípio o escritor é um ser humano diferente dos demais. Sua mente sempre está trabalhando com algum problema, é uma mente inquieta e, geralmente, não conformada com as regras do mundo, ele pode ter uma escrita contestatória, refutando valores vigentes e mostrando um novo olhar sobre o mundo e as coisas.

Quando começo a escrever sigo um roteiro pré-estabelecido (o esqueleto do livro), mas se o curso da história começar a se desviar do rumo pré-estabelecido, simplesmente sigo em frente, para ver aonde vai dar. Faço essa jornada em busca do desconhecido e se o resultado da escrita for bom refaço o roteiro. Sempre espero por esses desvios, porque abrem espaço para novas conexões.

Vou lhe fazer uma confissão: dá uma preguiça terrível sentar-se para escrever, entretanto depois de começar parece pedra rolando morro abaixo.

Todos de alguma maneira são contadores de história, seja escritor ou não, se não tiver dinheiro é ainda melhor, como diz Paulinho Gogó personagem do programa “A Praça é nossa!” do SBT: “quem não tem dinheiro conta história!”. A diferença é que o escritor passa tudo para o papel e tem tempo para refletir sobre aquilo que escreveu. Desse modo ouvimos muitas histórias, lemos muito e, às vezes, alguma frase nos chama atenção como um pedaço de música que roda o dia todo na cabeça sem nossa permissão. Pode ser uma notícia, uma teoria ou um “fato venéreo” – vale lembrar que escrever sobre sexo é ganhar audiência na certa, adicione a isso um pouco de intriga, conspiração, uma pitada de mistério (um enigma para ser decifrado), junte um pouco de teoria e complete com suas experiências de sucesso e, principalmente, de fracassos, isso faz o leitor se identificar naturalmente. Nunca diga tudo, deixe o leitor preencher as lacunas ao seu modo. No final preencha as lacunas que deixou solta pelo texto, isso causará surpresa ao leitor. Se ao final da história ainda deixou alguma coisa inacabada (aquilo que faz o leitor desejar ler mais, mas a história terminou). Então, você pode pensar na continuação dela criando um novo romance. Quem sabe uma trilogia.

O aprendizado na arte de escrever é muito lento e interminável. Além disso, existem as interrupções de aprendizado e descobertas. Você senta para escrever e isso lhe dá prazer, é seu trabalho ou seu desejo. Mas para os outros a sua volta isso não é trabalho é um passatempo. A exceção é quando você se torna um escritor de sucesso. Nesse caso as coisas mudam. Desligo até o celular para escrever, mas os “chatos” sempre encontram uma maneira de interromper o trabalho, deve ser a lei de Murphy. Sou interrompido inúmeras vezes. Alguém entra no quarto e fala: “o ventilador não gira!” Justo no momento em que meu personagem está em apuros e minha cabeça borbulhava de ideias para salvá-lo, mas lá vou eu descobrir por que o ventilador não gira e troco o plugue. Sinceramente tenho habilidades em consertar coisas dentro de casa. Se MacGyver (Profissão: Perigo da série de televisão americana exibida entre a década de 1980 e 1990) me vise morreria de inveja. Aos quatro anos de idade já desmontava os brinquedos só para ver como funcionava, é verdade que não conseguia remontá-los. E quando volto para salvar meu personagem ele já está morto e o trabalho de ressuscitá-lo é demorado. O telefone dá sinal de vida. Quanto quer apostar que é uma ligação de um chato? Na maioria das vezes alguém quer lhe vender um carro, um terreno, assinatura de jornal, cartão de crédito, serviços de internet etc., ou alguém lhe comunicando que sua conta de energia, água, telefone, prestação de lojas ou qualquer coisa do gênero estão atrasadas. Pode ser um amigo ligando para saber qual o número do telefone de outro amigo. Em 97% dos casos as ligações telefônicas são enchimento de linguiça e não acrescenta nada de bom a vida. As pessoas convencionaram que o trabalho está fora de casa. Assim, quem trabalha dentro de casa está descansando.

Essas interrupções quebram a estrutura de raciocínio; a linha de pensamento se rompe e com ela a “vaca vai para o brejo”. É difícil dar continuidade de onde se parou. E tem dias que mesmo trancado no quarto as interrupções lhe alcançam: crises, pessoas querendo conversar com você, a esposa ou namorada solicita sua atenção para um vestido novo ou corte de cabelo, a televisão está no volume máximo, ruídos, conversas próximo da sua porta, o cachorro que late sem parar e, especialmente, o casal de amigos que vai visitá-lo acompanhado de sua dupla de filhinhos “Gremlins”. Concluindo, tudo parece conspirar para não escrever.

Outras vezes você deseja até ser interrompido: quando lhe levam um lanche; o editor lhe telefona dizendo que seu livro esgotou a primeira edição e querem fazer a 2ª reimpressão; sua esposa entra e lhe diz algumas palavras de incentivo demonstrando estar junto com você nessa luta; alguém vem lhe mostrar uma reportagem no jornal sobre você, ou lhe telefona para dizer estar completa a pesquisa encomendada que servirá para a história do seu novo romance.  Interrupções que contribuem para o oficio de escrever.

Escrever tem seus altos e baixos. Mas o resultado dessa equação é sempre positivo. É engrandecedor. Vivemos duplamente através desse ato.

Acima de tudo o que foi dito aqui, escrever é projetar o futuro, foi assim com a construção de submarinos, aviões e a chegada do homem a lua, por exemplo, porque tudo aconteceu depois que a ideia foi plantada no papel, na literatura.

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