Crônica Outro Ritmo


crônica

Olá amigos! Hoje lhes apresento a crônica de Almir Jorge Macedo Nascimento*. O tema abordado é sobre a nossa falta de tempo para contemplar e aproveitar as pequenas coisas do dia a dia. A pressa moderna cria um paradoxo: quanto mais rápido somos, 

menos percebemos o que acontece ao nosso redor, para descobrirmos mais tarde que gastamos nosso tempo correndo atrás de coisas que não nos deixaram mais felizes. Assim, apresento-lhes o texto do nosso colunista:

Meu neto passa correndo. Pisa no meu chinelo e, sem parar de correr, olha para trás e me condena – com uma carinha feia (que é linda!) –, para logo em seguida estatelar-se na grama ligeiramente úmida que lhe emporcalha a roupa. “Viu só, vô, viu só?” ...  Foi o que me disse, quase ruborizado, pelo fato de eu, em seu juízo, ter sido um velho causador de acidentes. Faz tempo, isso.  Agora já é um belo rapaz.

Hoje pela manhã, enquanto observava da janela o sossego do vale – e ainda ouvindo as palavras da enfermeira, ditas ao fim da tarde de ontem –, num segundo recriei toda a cena do pequeno acidente de meu netinho...

A casa não era muito grande, abrigava a contento ao menos as correrias do menino e todas aquelas intermináveis peças de roupas brancas de que a avó sempre se esquecia, quarando-as sossegadamente. Era assim. Cuidava-se da roupa durante dias e dias. Não havia pressa, a não ser a da natural diversão infantil. Antes, cartas viajavam dias e dias até encontrarem seus destinos. Beijos em namoros? Uma semana depois de iniciado o romance! Lembro-me também de que ficávamos horas e horas nas varandas comentando os acontecimentos do dia, entre um cafezinho e outro, mesmo com aquela novidade acesa, na sala, a mostrar uma sequência de imagens e alguém falando, falando, falando... O pão quentinho, recém-saído do forno, era uma esperada delícia; não havia momento exato para ficar pronto, causando pequeno encontro de vizinhos no estabelecimento do nosso velho e bom amigo Antônio, em fins de tarde. Ou íamos ao centro da cidade e todos os afazeres se encaixavam até que o passeio culminasse por meio de um belo sorvete, antes do calmo retorno a casa, no lotação sempre com lugares à nossa espera. Mas agora...

Os netos passam correndo. Não há beijos, abraços; não há perguntas ou respostas. Não há dúvidas: “já sei, já sei”. Hoje é assim, muita urgência: o coleguinha chamou, vai começar o filme, a internet convocou, o carro buzinando lá fora, a namorada não pode esperar, a turma aguardando, o futebol...  Hoje sempre há pressa. Em tudo: almoços, conversas, namoros.  Nos casamentos!  Aqui na clínica não é diferente, as moças correm o tempo todo: pressão, temperatura, hora certa para almoço e jantar...

Outro dia meu neto passou correndo. Pisou em meu chinelo, “desculpe, vô”, e seguiu direto para o quarto, fazendo quase tudo ao mesmo tempo: “mãe, o almoço tá pronto?” Tênis e meias arrancados dos pés, televisão e computador ligados, livros e cadernos sobre a cama e, celular, celular, celular. “Tchau, vô”, beijo na mãe, carinho rápido na cabeça do cachorro e uma descida veloz com passos barulhentos e bem marcados pelas escadas. “Não sei a que horas eu volto!”  E se foi.

Sinto algum descompasso em tudo isso; sinto saudade daquela avó que me alertava: “bebe devagar, está quente!”, ao me servir um cafezinho. Olho para trás e avisto as roupas quarando; o singelo alpendre abrigando cadeiras, conversas, olhares...  O alpendre que dava sombra ao meu netinho dormindo, cansado da brincadeira, aquela criaturinha com os braços abertos, soltas as pernas no colo da avó... a minha linda velha a cuidar de tudo! Meu ritmo é outro; não quero nem gosto de tentar acompanhá-los nessa velocidade, nessa busca meio impensada de se atingir não sei o quê... Gosto quando há tempo para as coisas e a conversa se estende e o caminho é bem observado e a beleza admirada e o prazer sentido aos poucos. Sempre fui assim. Meu ritmo é diferente: prefiro andar a correr, ainda que não goste muito de exercícios – a primeira reprimenda, aliás, logo que cheguei aqui, ainda na triagem. Assisto a filmes cadenciados, leio livros que me esperam e aprecio as canções que tendem ao suave.  Observo horários e sempre me antecipo – fugindo, desse modo, da correria –, de maneira a não perder inícios de filmes e de espetáculos, voos, encontros...

Soube que, ontem, meu neto pisou em meu chinelo ao chegar para o almoço: “Como é que ele tá, mãe, como é que tá meu vô?” E minha filha a tranquilizá-lo: “Ah, você sabe, seu avô é muito calmo, está com aquela carinha boa de sempre”. Ainda acrescentou que poderia ir à aula sem preocupações e que lhe telefonaria, em caso de necessidade.

“Em caso de necessidade, o último recurso será a cirurgia”, foi o que me disse ontem a enfermeira, com o sol quase se despedindo. Percebi o que se passa; a noite me acompanhou, eu acordado e refletindo... Hoje, ao amanhecer, da janela assistia ao verde orvalhado e revia aquele menininho, há anos, a escorregar por causa de meu distraído chinelo.  Ao procurar não me enfraquecer em pensamentos, deixo o vale e a janela para trás e me volto para o interior do quarto, quando vejo que meu neto passa correndo. Observo-o por uma fresta que mostra parte do corredor da clínica, mas ele não me pôde ver. Um arrepio de saudade me envolveu...  Eu muito gostaria ter sabido passar-lhe a ideia de desnecessidade da pressa, de igualdade entre todos: amigos, namoradas, avós, pais, vizinhos, colegas de turma... De como é bom querer pouco nesta vida; que felicidade é coisa de instantes, mas que a vida é tecida de milhões de instantes. De que os pequenos prazeres é que são os grandes prazeres, de que os pequenos momentos é que, na verdade, são os grandes momentos. De que, cafezinho, se bebe devagar, bem devagar. Mas com certeza não houve oportunidade. O tempo passou muito rapidamente.

                                                              *Conheça Almir Jorge

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Um comentário:

  1. Especial... na mão de um dedicado escritor, um lápis pode transformar um conjunto de palavras singelas, mas bem conectadas, em uma grande crônica! A vida passa ligeiramente, e a saudade nos faz recordar momentos significantes. Bonita expressão da vida nesse texto!

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